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2. A ética da crença
O filósofo e matemático inglês William K. Clifford (1845-1879) defende que é imoral

acreditar naquilo para o qual não temos provas ou argumentos. É imoral porque é irracio-
nal. Por exemplo, se uma pessoa acreditar que há extraterrestres sem quaisquer provas,
estará a cometer dois erros: em primeiro lugar, está a ser irracional porque acredita em algo
sem provas; mas, além disso, está também a ser imoral.

Está a ser imoral por dois motivos. Primeiro, porque a sua atitude acabará por dar maus
resultados. Mais cedo ou mais tarde, a sua falta de sentido crítico irá provocar catástrofes
e sofrimento. Segundo, porque a sua atitude acabará por se transmitir a pouco e pouco à
restante sociedade, conduzindo-a à barbárie.

Para ilustrar a ideia de que é imoral acreditar naquilo para o qual não temos provas ou
argumentos Clifford usa o seguinte exemplo:

Um armador estava prestes a enviar para o mar o seu navio com emigrantes. Ele sabia

que o navio era velho e que não tinha uma boa construção; que já tinha visto muitos mares

e climas, e que precisava de reparações constantes. Foi-lhe sugerido que o navio não tinha

condições de navegabilidade. Estas dúvidas assombravam-lhe o espírito e faziam-no infeliz;

pensava que talvez devesse mandar inspeccionar e reparar o navio, apesar de isto lhe sair

muito caro. Antes de o navio zarpar, todavia, conseguiu ultrapassar estas reflexões melan-

cólicas. Disse de si para si que o navio tinha feito já tantas viagens em segurança e tinha

aguentado tantas tempestades que era uma perda de tempo supor que não regressaria em

segurança de mais esta viagem. Confiaria na Providência, que dificilmente deixaria de pro-

teger todas aquelas infelizes famílias que abandonavam a sua terra natal para procurar um

futuro melhor noutro lado. Afastaria do seu espírito todas as suspeitas mesquinhas sobre a

honestidade dos estaleiros. E deste modo adquiriu uma convicção sincera e confortável de

que o seu navio era inteiramente seguro e tinha condições de navegabilidade; assistiu à sua

partida de coração ligeiro e com votos benevolentes pelo sucesso dos exilados no que seria

o seu novo lar; e recebeu o dinheiro do seguro quando o navio se afundou no meio do

oceano sem deixar sobreviventes.

W. K. Clifford, «A Ética da Crença», 1879, trad. de Desidério Murcho, p. 70

Clifford defende que o armador é culpado pela morte de todos os passageiros do navio.
O facto de o armador acreditar sinceramente na solidez do navio é irrelevante. O armador
sabia que o navio estava velho e que precisava de constantes reparações, e tinha sido
alertado para o facto de precisar de manutenção. Afastar os indícios de que o navio
precisava de manutenção e passar a acreditar genuinamente na solidez do navio não o
torna menos culpado. O armador não tinha o direito de acreditar na solidez do navio, dada
a informação de que dispunha.

Agora imaginemos que afinal o navio tinha feito a viagem sem problemas. Será que isto
isenta o armador de qualquer responsabilidade ao acreditar na solidez do navio? Clifford

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argumenta que não. É irrelevante se o navio por
acaso resistiu a mais uma viagem. O que importa é
a forma como o armador chegou à sua crença de
que o navio iria resistir a mais uma viagem. Dado
que o armador sabia que o navio estava velho e
dado que tinha sido alertado para o facto de pre-
cisar de manutenção, tinha o dever de investigar
esses factos antes de acreditar no que quer que
fosse. O facto de o navio ter resistido, por acaso, a
mais uma viagem não torna o armador menos res-
ponsável pelo modo irracional como adquiriu a sua
crença na solidez do navio. Apenas teve sorte de o
navio não se ter afundado.

Assim, mesmo que o navio não tivesse naufra-
gado, o armador seria eticamente culpado por ter
uma crença sem fundamentos. Claro que neste
caso não seria culpado pela morte dos passageiros
do navio, uma vez que o navio não naufragou e nin-
guém morreu. Mas seria culpado por colocar a vida
dessas pessoas em risco ao acreditar na solidez do
navio sem provas suficientes. Acreditar por sorte
em algo verdadeiro, sem provas, é tão eticamente
errado como acreditar em algo falso sem provas.
O que está errado é acreditar em algo sem provas,
quer se acerte por acaso na verdade quer não.

Dado que agimos em função daquilo em que
acreditamos, quando as nossas acções podem pre-
judicar alguém temos o dever de avaliar cuidadosa-
mente a informação de que dispomos antes de
acreditarmos no que quer que seja. Mas e se as
nossas acções não prejudicarem ninguém? Será
que neste caso é eticamente legítimo acreditar na-
quilo que mais nos convém?

Imagine-se que o João acredita, sem qualquer prova que apoie a sua crença, que é o
estudante mais popular da escola. Ao acreditar nisto, o João tem uma vida mais feliz e não
prejudica seja quem for. Será que mesmo assim o João é culpado por acreditar em tal
coisa sem provas suficientes que apoiem a sua crença? Clifford defende que sim.

Clifford pensa que todas as nossas crenças têm uma dimensão social; não há crenças
que apenas digam respeito a quem as tem.

[...] Se me permitir acreditar em algo sem razões suficientes, pode ser que nada de grave

advenha dessa crença; esta até pode revelar-se verdadeira, ou posso nunca ter a

oportunidade de agir publicamente com base nela. Mas não posso evitar fazer um grande

mal para com o Homem, ao tornar-me crédulo. O perigo para a sociedade não é apenas o

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Mensagem do Mar, de John Everett Millais
(1829-1896). Ao acreditar sem provas suficientes
na solidez do navio, o armador seria culpado pela
morte de todos os passageiros e pelo sofrimento
dos seus familiares.

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13. Será que ter um bom argumento a favor da existência de Deus constitui prova
suficiente para acreditar na existência de Deus? Porquê?

14. Devemos ser agnósticos relativamente à existência de Deus? Porquê?

15. Imagine que se perdeu numa montanha coberta de neve e que a única pos-
sibilidade de sobreviver é conseguir saltar um enorme precipício. Olhando
para a distância, é impossível dizer se o salto será bem sucedido ou não. Mas
se tentar convencer-se de que será bem sucedido, talvez consiga reunir as
forças necessárias para ser bem sucedido. Será que neste caso é incorrecto
tentar convencer-se de que o salto será bem sucedido? Justifique.

Texto 41

Deveres para com a Humanidade
W. K. Clifford

Nenhuma crença humana é, em qualquer dos casos, uma questão pessoal que apenas a

uma pessoa diz respeito. As nossas vidas são orientadas por aquela concepção geral do

curso das coisas que foi criada pela sociedade para fins sociais. As nossas palavras, as nossas

expressões, as nossas formas, processos e modos de pensar, são propriedade comum,

trabalhadas e aperfeiçoadas ao longo dos séculos; um bem que cada geração subsequente

herda como um repositório precioso e uma responsabilidade sagrada a ser entregue à

próxima geração, não inalterada mas sim alargada e purificada, com algumas marcas claras

do seu próprio ofício. Nesta, para o bem ou para o mal, se tece cada crença de cada homem

que partilha o discurso com os outros. O nosso dever de ajudar a criar um mundo no qual

a prosperidade irá viver é um tremendo privilégio e uma tremenda responsabilidade.

Nos dois casos em apreço [sendo um deles o caso do armador], considerou-se errado

acreditar em algo sem provas suficientes, assim como alimentar uma crença através do

afastamento de dúvidas e da evasão à investigação. A razão para este juízo não é difícil de

ver: é que em ambos os casos a crença que um homem tinha era de grande importância

para outros. Contudo, uma vez que nenhuma das crenças de um homem é de facto

insignificante ou sem efeitos para a humanidade, por mais trivial e por mais obscuro que o

crente pareça, não temos outra escolha senão alargar o nosso juízo a todo e qualquer tipo

de crença. A crença, aquela faculdade sagrada que impele as decisões da nossa vontade, e

que une num trabalho harmonioso todas as forças compactadas do nosso ser, é nossa não

para nós, mas para a humanidade. [...]

Esta sensação de poder é o mais elevado e o melhor dos prazeres quando a crença na

qual se encontra fundada é uma crença verdadeira, e que foi honestamente adquirida pela

investigação. Pois assim podemos sentir com justiça que se trata de propriedade comum, e

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mantém-se firme para os outros assim como para nós próprios. Depois podemos ficar

satisfeitos, não porque eu descobri segredos que me fazem sentir mais seguro e forte, mas

porque nós, homens, compreendemos mais uma parte do mundo; e ficaremos mais fortes,

não para nós, mas em nome do Homem e da sua força. Mas se a crença foi aceite com

provas insuficientes, é um prazer roubado. Não só nos ilude a nós mesmos ao dar-nos uma

sensação de poder que de facto não temos, mas é um pecado, porque é roubado violando

o nosso dever para com a humanidade. Esse dever consiste em nos protegermos de tais

crenças como se de uma epidemia se tratasse, a qual que pode rapidamente tomar conta do

nosso próprio corpo, alastrando-se de seguida ao resto da cidade.

W. K. Clifford, «A Ética da Crença», 1879, trad. de Célia Teixeira, pp. 73-76

Interpretação

1. Que quer dizer Clifford com a seguinte afirmação: «nenhuma crença humana
é, em qualquer dos casos, uma questão pessoal que apenas a uma pessoa diz
respeito»?

2. Como justifica Clifford a afirmação de que «nenhuma crença humana é, em
qualquer dos casos, uma questão pessoal que apenas a uma pessoa diz res-
peito»?

3. Por que acha o autor que uma crença verdadeira e honestamente adquirida
pela investigação é propriedade comum?

4. Por que acha o autor que nos devemos proteger de crenças adquiridas sem
provas suficientes como se de uma epidemia se tratasse?

Discussão

5. «Nenhuma das crenças de um homem é de facto insignificante ou sem efeitos
para a humanidade.» Concorda? Porquê?

6. Concorda que uma crença verdadeira e honestamente adquirida pela investiga-
ção é propriedade comum? Porquê?

7. Concorda que acreditar em algo sem provas suficientes é um mal? Porquê?

8. Concorda que nos devemos proteger de crenças adquiridas sem provas sufi-
cientes como se de uma epidemia se tratasse? Porquê?

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não optar; é optar por um certo tipo de risco. É melhor arriscar perder a verdade do que cair

no erro – esta é exactamente a posição daquele que veta a fé. Ele está activamente a arriscar

do mesmo modo que o crente; está a apoiar a posição contrária à hipótese religiosa, tal

como o crente apoia a hipótese religiosa contra essa posição. Apregoar o cepticismo a todos

nós como um dever até termos «provas suficientes» a favor da religião é, deste modo, equi-

valente a dizer, quando em presença da hipótese religiosa, que ceder ao medo de esta ser

errada é mais prudente e melhor do que ceder à nossa esperança de que seja verdadeira.

Logo, não é o intelecto contra as nossas paixões; é apenas o intelecto com uma paixão a

ditar a sua lei.

[...] Deste modo, eu, pelo menos, não consigo aceitar as regras do agnóstico para a pro-

cura da verdade, nem concordar de boa vontade em deixar de lado a minha natureza

volitiva. Não o posso fazer por esta simples razão: uma regra do pensamento que me iria im-

pedir em absoluto de reconhecer certo tipo de verdades se tais tipos de verdades existissem real-

mente, seria uma regra irracional.

[...] Se tivéssemos um intelecto infalível com as suas certezas objectivas, poderíamos

sentir-nos desleais para com tão perfeito órgão ou conhecimento ao não confiarmos exclu-

sivamente nele, por não esperarmos pela sua professa palavra. Mas […] se acreditamos que

nenhuma campainha soa em nós de modo a ficarmos a saber com toda a certeza quando a

verdade está ao nosso alcance, então parece uma inutilidade fantasiosa apregoar tão

solenemente o nosso dever de esperar pelo toque da campainha.

William James, «A Vontade de Acreditar», 1897, trad. de Célia Teixeira, pp. 374-376

Interpretação

1. O que significa dizer que a religião é uma opção momentosa?

2. O que significa dizer que a religião é uma opção forçosa?

3. Por que acha James que o cepticismo não é uma forma de não optar?

4. «Não é o intelecto contra as nossas paixões; é apenas o intelecto com uma
paixão a ditar a sua lei.» O que quer o autor dizer?

5. «Se acreditamos que nenhuma campainha soa em nós de modo a ficarmos a
saber com toda a certeza quando a verdade está ao nosso alcance, então
parece uma inutilidade fantasiosa apregoar tão solenemente o nosso dever de
esperar pelo toque da campainha.» O que quer o autor dizer?

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As dimensões pessoal e social das religiões Capítulo 16

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Discussão

6. «É melhor arriscar perder a verdade do que cair no erro.» Concorda? Porquê?

7. «Uma regra do pensamento que me iria impedir em absoluto de reconhecer
certo tipo de verdades se tais tipos de verdades existissem realmente, seria
uma regra irracional.» Concorda? Porquê?

8. «Se a nossa razão fosse infalível, devíamos segui-la sempre, mas como não é,
então não temos o dever de a seguir sempre.» Concorda? Porquê?

9. «Precisamente porque a nossa razão é falível, temos de analisar cuidadosa-
mente os dados de que dispomos antes de acreditar em algo. Só se fosse infa-
lível é que tais cautelas seriam desnecessárias.» Concorda? Porquê?

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NÃO

William Clifford

SIM

William James

Podemos seguir as nossas
paixões e acreditar que Deus
existe, dado que a razão não

pode decidir tal coisa.

É eticamente legítimo acreditar
na existência de Deus, evitando
assim a perda de uma possível

verdade e de um bem vital.

Só é eticamente legítimo
acreditar naquilo para o qual
temos provas suficientes.

Não temos provas suficientes
a favor da existência de Deus.

Logo, não é eticamente legítimo
acreditar que Deus existe.

Será eticamente legítimo acreditar que Deus existe?

Estudo complementar

Clifford, William (1878) «A Ética da Crença», in Textos e Problemas de Filosofia, org.
de Aires Almeida e Desidério Murcho. Lisboa: Plátano, 2006, Cap. 6.

Kolak, Daniel e Martin, Raymond (2002) «Deus» in Sabedoria sem Respostas, trad.
de Célia Teixeira. Lisboa: Temas e Debates, 2004, Cap. 6.

Murcho, Desidério (2005) «Verdade», in Crítica, 2005,
http://www.criticanarede.com/html/ed103.html.

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