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c a l v i n o , I talo. Marcovaldo ou
As estações na cidade, Companhia das
Letras, 1994. Iâ ed. [Marcovaldo ovvero
Le stagioni in città, 1963] Tradução: Nilson Moulin

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Os amores difíceis
( ) barão nas árvores
( ) caminho de San Giovanni
O castelo dos destinos cruzados
O cavaleiro inexistente
As cidades invisíveis
Contos fantásticos do século XIX (org.J
As cosmicômicas
O dia de um escrutinador
Eremita em Paris
Fábulas italianas
Um general na biblioteca
Marcovaldo ou As estações na cidade
Os nossos antepassados
Palomar
Perde quem fica zangado primeiro (infantil)
Por que ler os clássicos
Se um viajante numa noite de inverno
Seis propostas para o próximo milênio — Lições americanas
Sob o sol-jaguar
Todas as cosmicômicas
A trilha dos ninhos de aranha
O visconde partido ao meio

Obras do autor publicadas pela Companhia das Letras

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■ INVERNO

Marcovaldo dfrigiu-se maquinalmente ao ponto do 30 e bateu
o nariz no poste do ponto. Naquele momento, se deu conta de ser
feliz: a neblina, cancelando o mundo ao redor, lhe permitia conser­
var nos olhos as visões da tela panorâmica. Também o frio era aba­
fado, como se a cidade tivesse vestido uma nuvem semelhante a
um cobertor. Marcovaldo, agasalhado com seu capotão, se sentia
protegido de toda sensação externa, jogado no vazio, e podia colo­
rir esse vazio com as imagens da índia, do Ganges, da selva, de
Calcutá.

Chegou o bonde, evanescente como um fantasma, tocando a
campainha lentamente; as coisas existiam apenas aquele pouco
que basta; para Marcovaldo, estar naquela noite no fundo do bon­
de, de costas para os demais passageiros, olhando a noite vazia fora
dos vidros, atravessada só por indistintas presenças luminosas e por
algumas sombras mais negras que a escuridão, era a situação per­
feita para sonhar de olhos abertos, para projetar diante de si um
filme ininterrupto numa tela sem limites.

Com a imaginação livre, perdera a conta das paradas; de re­
pente se perguntou onde estava; viu o bonde quase vazio; perscru-
tou fora dos vidros, interpretou os clarões que afloravam, decidiu
que seu ponto era o próximo, correu até a saída em cima da hora,
desceu. Olhou ao redor buscando alguma referência. Mas o pouco
de sombras e luzes que seus olhos conseguiam reunir não compu­
nha nenhuma imagem conhecida. Errara o ponto e não sabia onde
estava.

Se encontrasse um transeunte, ele lhe indicaria o caminho fa­
cilmente; mas, como o lugar era solitário, por causa da hora, do
tempo fechado, não se via a sombra de ninguém. Finalmente viu
uma sombra, e esperou que se aproximasse. Não: se afastava, tal­
vez estivesse atravessando, ou caminhasse no meio da rua, quem
sabe não era um pedestre mas um ciclista, numa bicicleta sem luzes.

Marcovaldo gritou:
— Por favor! Por favor, meu senhor! Sabe onde fica a rua

Pancrazio Pancrazietti?
A figura ia se afastando, quase não se via mais. Disse:

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O PONTO ERRADO n

— Do lado de lááá... — Mas não se sabia que direção indicava.
— Lado direito ou esquerdo? — gritou Marcovaldo, mas não

sabia se falava com o vazio.
Chegou uma resposta, ou um fiapo de resposta: um “... eito!”

que podia ser também “...erdo!”. De qualquer modo, dado que um
não via como o outro estava posicionado, direita ou esquerda não
significavam nada.

Marcovaldo andava agora na direção de uma claridade que
parecia vir da outra calçada, um pouco mais adiante. Contudo, a
distância era muito maior: era preciso atravessar uma espécie de
praça, com uma ilhota arborizada no meio, e as flechas (único sinal
inteligível) da mão obrigatória para os carros. Era tarde, mas decer­
to ainda havia alguns bares abertos, alguns restaurantes; o sinal lu­
minoso que começava a decifrar dizia: Bar... E se apagou; sobre o
que devia ser um vidro iluminado caiu uma lâmina de escuridão,
como uma porta de correr. O bar estava fechando, e ficava — pa­
receu-lhe entender naquele momento — muito distante.

Dava no mesmo dirigir-se para outra luz: Marcovaldo, cami­
nhando, não sabia se andava em linha reta, se o ponto luminoso
para o qual se dirigia era sempre o mesmo ou se se desdobrava,
triplicava ou ia mudando de lugar. O chuvisco de um negrume
meio leitoso dentro do qual se movia era tão miudinho que já o
sentia infiltrar-se pelo casaco, entre os fios do tecido, como numa
peneira, encharcando-o feito esponja.

A luz aonde chegou era a porta enfumaçada de uma taberna.
Dentro havia gente sentada e de pé, no balcão, porém, fosse pela
iluminação precária, fosse pela neblina que penetrava por todos os
lados, também ali as figuras pareciam fora de foco, exatamente
como em certas tabernas que se vêem no cinema, situadas em tem­
pos antigos ou em países distantes.

“Estava procurando... se alguém sabe... Rua Pancrazietti...”,
começou a dizer, mas no local havia barulho, bêbados que riam
pensando que ele também estivesse bêbado e as perguntas que
conseguiu fazer, as explicações que conseguiu obter, eram igual­
mente nebulosas e desfocadas. Tanto mais que, para aquecer-se,

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POSFÁCIO U

de Papai Noel”), uma imaginária “União para o Incremento das
Vendas Natalinas” lança a campanha para o “Presente Destrutivo”.

Mas mal o conto adquire um significado, fecha-se num
apólogo, o autor se retrai, com um esquivar-se que é caraterístico
dele (convencido de que os verdadeiros significados de uma histó­
ria são aqueles que o leitor sabe encontrar por sua conta, refletindo
a respeito), e logo lembra que tudo não passou de uma brincadeira.
Assim, no desfecho do último conto, com uma dissolução de ima­
gens que é freqüente nos livros do autor, o minucioso desenho
grotesco revela estar inserido num outro desenho, um desenho de
neve e animais, como de um livro para crianças, que em seguida se
transforma num desenho abstrato e, depois, numa página branca.

Livro para crianças? Livro juvenil? Livro para adultos? Vimos
que todos esses planos se entrelaçam continuamente. Ou então um
livro em que o autor, atrás da superfície de estruturas narrativas
simplicíssimas, expressa sua relação, perplexa e interrogativa, com
o mundo? Isso também, talvez.

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