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                            Glossário
Lista de abreviações
Prefácio à nova edição
Agradecimento
Prefácio à edição brasileira - Varoufakis e a Tragédia Global: à guisa de apresentação
1. Introdução
2. Laboratórios do futuro
3. O plano global
4. O Minotauro Global
5. Os serviçais da besta
6. Colapso
7. Os serviçais contra-atacam
8. O legado do Minotauro Global
9. Um mundo sem o Minotauro
Posfácio à nova edição
Leitura recomendada
Selo economia do comum: antiausteridade
                        
Document Text Contents
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O MINOTAURO GLOBAL
A VERDADEIRA ORIGEM DA CRISE FINANCEIRA E O FUTURO DA ECONOMIA GLOBAL

EDITORA AUTONOMIA LITERÁRIA
2016

YANIS VAROUFAKIS

TRADUÇÃO DE MARCELA WERNECK
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA POR LEDA PAULANI

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Japão, China, Índia etc.) alcançar o mesmo sucesso que os Estados Uni-
dos tinham alcançado (desde meados da década de 1970) simplesmente
adotando o modelo norte-americano. Tomados pela tentativa de fornecer
mais um testemunho sobre a capacidade humana de tornar os desejos rea-
lidade, hordas de pessoas, normalmente brilhantes, deixaram-se levar por
uma extraordinária fantasia: de que seria possível para todos os principais
centros capitalistas do mundo atrairem, ao mesmo tempo, um enorme
fluxo de capital líquido (na casa dos us$ 3 bilhões a us$5 bilhões de dó-
lares por dia útil, que foi a soma alcançada pelo Minotauro Global nos
seus anos dourados); que seria viável para todos os principais centros capi-
talistas, não somente produzir seus próprios “Minotauros”, mas também
convencer o resto do mundo a alimentá-los.

Enquanto isso, o Minotauro Global ia esvaziando a economia norte-
-americana, ao mesmo tempo em que reforçava sua linha de fundo. Para
tanto, beneficiou-se dos leais e entusiasmados préstimos de uma série
de serviçais. Wall Street era, naturalmente, o mais obediente. Mas havia
outros: empresas como Walmart estavam criando um novo modelo de
negócio que engrossava os rios de dinheiro, enquanto políticos e econo-
mistas forneciam a cobertura institucional e “científica” que fazia todo o
empreendimento parecer legítimo e até mesmo iluminado. Neste capí-
tulo, vamos analisar os serviçais.

Quadro 5.1

Quem eram os serviçais?

O líder dos serviçais não era outro senão Wall Street. Sua primeira
reação aos fluxos de capital do Minotauro foi um frenesi de aquisições
e fusões, resultado da súbita entrada de dinheiro de fontes estrangeiras
e lucros domésticos. Novos instrumentos financeiros, em sua maioria
dispositivos de cobertura (hedge), logo começaram a desempenhar um
influente papel.

Além de Wall Street, um segundo serviçal surgiu em cada estado e cada
cidade: o onipresente Walmart, inaugurando um novo tipo de conglo-

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merado que mostrou ao resto da América corporativa novas formas de
espremer tanto os custos trabalhistas quanto os pequenos fornecedores.

Um terceiro serviçal apareceu em Washington (e em outros centros
de poder político): a ideologia e a política do trickle-down – a ideia de
que a melhor maneira de beneficiar os pobres é acumular novas rique-
zas na porta dos super-ricos.

Este serviçal, particularmente feio, teria perdido toda credibilidade
se não fosse por um quarto pseudocientífico serviçal – a teoria econô-
mica tóxica. Na linguagem cotidiana, ela veio a ser conhecida como a
supply-side economics52, mas nos grandes departamentos de economia
funcionava como uma arrebatadora superstição matematizada. Seus
modelos, não obstante seu grau de irrelevância como representações
fiéis do capitalismo, forneceram inspiração para as fórmulas matemá-
ticas que permitiram a Wall Street fazer duas coisas: primeiramente,
argumentar que o setor financeiro deveria ser liberado de toda regu-
lamentação e, em seguida, atrelar-se ao setor imobiliário. Na verdade,
os derivativos tóxicos lastreados nas hipotecas subprime (aquelas armas
de destruição financeira em massa que nos trouxeram a Crise de 2008)
nunca teriam sido possíveis sem a teoria econômica tóxica que foi ge-
rada nas melhores universidades, mais ou menos na mesma época em
que o Minotauro nascia.

A febre das aquisições: Wall Street cria valores metafísicos

Em um ano típico antes da Crise de 2008 – mesmo antes do louco frenesi
de 2006-2008, o Minotauro estava devorando mais de 70% das saídas de
capitais globais. Japão e Alemanha eram as fontes primárias até os primei-
ros anos da virada do milênio. Por volta de 2003, a China entrou em cena
como o maior contribuinte. Montanhas de dinheiro foram transferidas de
todo o mundo para Wall Street, e de lá para famílias e empresas norte-a-
mericanas sob a forma de capital (participações acionárias) e empréstimos.

52 N do E.: Conhecida em português como “Economia pelo Lado da Oferta”, cujo prin-
cipal representante é o economista Arthur Laffer.

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Selo Economia do Comum: Antiausteridade

Assim como o muro de Berlim caiu em ruínas junto com a Cortina de
Ferro em 1989, o mundo viu a Crise de 2008 derrubar a muralha de Wall
Street. Mais catastrófico do que outras turbulências econômicas, o colapso
do setor financeiro rapidamente se transformou em uma crise econômica
mundial, tratando de desnudar a aparência de normalidade que reinava sob o
pensamento único do neoliberalismo. As mega instituições financeiras foram
à bancarrota expondo um sistema assentado em especulações, negociando pa-
péis podres e servindo como o solo pantanoso no qual, afinal, se viu que o
edifício global estava construído após a quebra do padrão-ouro em 1971.

A hegemonia do Capitalismo triunfante da década de 1990, que receitava
a liberdade absoluta dos mercados, logo mudou de ideia. Rapidamente, a so-
lução da ampla maioria dos governos, eua e seus sócios minoritários do g7
apoiados pelas estruturas do fmi e do Banco Mundial, foi recapitalizar corpo-
rações falidas com dinheiro público. Uma das maiores intervenções estatais
que o mundo já viu. Algo não muito diferente que Vladimir Lenin fez após
a Revolução Russa em 1917. Só que dessa vez, quem conduzia este processo
eram liberais e conservadores. O resultado não podia ser diferente: a “reesta-
tização” dos bancos aplicou um socialismo ao avesso, onde socializavam os
prejuízos nas costas dos 99% enquanto capitalizavam os lucros no bolso do
1%. O aumento da desigualdade, do caos e as desastrosas consequências após
o colapso deu fôlego a um novo ciclo de lutas e de ativismo a partir de 2011.

A famigerada austeridade econômica tornou-se palatável pelo eufemismo
do “ajuste fiscal”, e foi apontada como a única saída para o colapso segundo
a cartilha liberal, sendo exportada para o mundo quando os países se viram
diante do tsunami causado pela crise. Apesar das diferenças econômicas entre
os países o lema continuava sendo o mesmo: todos perdem, mas os bancos con-
tinuam ganhando. A destruição do estado de bem-estar social com cortes de
direitos sociais e políticas de incentivo à produção e ao emprego aprofundaram
ainda mais a recessão. O plano da austeridade fez com que a crise econômica
se tornasse, ela própria, uma economia de crise. A descrença na política insti-
tucional que traíra o povo exigia agora a reinvenção da democracia.

Dentro deste contexto, a editora Autonomia Literária traz a ideia do
Selo Economia do Comum: Antiausteridade para debater os grandes pro-

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blemas econômicos contemporâneos, sobre um viØs de crítica profunda,
sem concessıes e, sobretudo, sem dogmas. Confrontar o amargo remØ-
dio da austeridade no labirinto do caos de�agrado pela crise Ø pensar nas
chaves para a construçªo de uma nova economia, desta vez a serviço dos
dos 99%, do meio-ambiente e do bem-estar - em um momento de franco
ataque aos direitos fundamentais aqui e mundo afora.

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