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Table of Contents
                            SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
1. EM DIREÇÃO À PSICANÁLISE
2. DESEJOS SEM IMAGENS
3. HISTORIAS DE ESTRUTURAS
4. FORMAS DO REAL
CONCLUSÃO
CRONOLOGIA
BIBLIOGRAFIA
SOBRE O AUTOR
                        
Document Text Contents
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Hístórías de Estruturas 47

Vimos de que forma a clínica lacaniana aparecia
como uma espécie de crítica da alienação do Eu, que
visava abrir espaço para o reconhecimento do desejo.
No entanto, o que pode exatamente significar "abrir
espaço para o reconhecimento" de um desejo que é
pura negatividade? Significa descobrir que o desejo
é indiferente aos objetos aos quais se fixa, que sua na-
tureza consiste em mudar continuamente de objeto?
Significa dizer que o desejo destrói todos seus obje-
tos, como se sua verdade fosse ser puro desejo de des-
truição e morte? É nesse ponto que o recurso à noção
de estrutura mostra sua importância.

Lacan insiste que a Lei social que estrutura o uni-
verso simbólico não é uma lei normativa no sentido
forte do termo, ou seja, uma lei que enuncia claramente
o que devo fazer e quais condições devo preencher
para segui-la. Essa é uma questão central que costuma
gerar confusões. A Lei simplesmente organiza distin-
ções e oposições que, em si, não teriam sentido algum.
Assim, por exemplo, a Lei da estrutura de parentesco
pode determinar topicamente vários lugares, como "fi-
lho de ... ", "pai de ... "," cunhada de ... ", mas esses lugares
não têm em si nenhuma significação normativa, ne-
nhuma referência estável. Por isso, nunca sei claramente
o que significa, por exemplo, ser "pai de ... ", mesmo
tendo consciência de que ocupo atualmente tal lugar.
Só posso saber o que um pai é, o que devo fazer para
assumir a autoridade e enunciar a norma à condição
de acreditar em certa impostura. É essa ausência de
conteúdo que Lacan tem em vista ao afirmar que a Lei
sociossimbólica é compostà pó r significantes puros, que
ela é uma "cadeia de significantes".

A definição clássica do signo insiste em que ele
é formado por duas entidades: o significante e o sig-
nificado. Sendo o significado o conceito, ou seja,

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aquilo que, de uma forma ou outra, preenche expec-
tativas de acesso à referência extralingüística, um sig-
nificante puro será um suporte material da língua que
n:lo tem significado, que não denota referência alguma,
como uma palavra que é pura presença do que não se
determina. A reviravolta de Lacan consistirá em dizer
que este significante puro, desprovido de referência, é
a formalização mais adequada para um desejo que, por
sua vez, é negatividade desprovida de objeto. Pois só
um significante puro pode dar forma a um desejo que
é fundamentalmente inadequado a toda figuração. Ou
seja, a crítica da alienação a que se propõe Lacan deve
se realizar através do desvelamento de que a verdade
do desejo do sujeito é ser desejo da Lei, isso nos dois
sentidos do genitivo: desejo enunciado no lugar da Lei
e desejo pelo significante puro da Lei.

Assim, para Lacan, um processo fundamental
ocorre quando o sujeito deixa de desejar objetos para
desejar a Lei que os constitui. Neste sentido, diremos
que uma proposição antilacaniana por excelência foi
enunciada pela heroína de um filme de Lars von Trier,
Breaking the Waves (Ondas do Destino). Nele, a prota-
gonista Bess, em uma interpelação contra um pastor,
afirma: "Eu não sei amar uma palavra, só sei amar pes-
soas". Para Lacan, ao contrário, há uma modificação
profunda no desejo quando descobrimos que uma
pessoa é, no fundo, uma palavra encarnada. Pois ser
uma palavra encarnada significa mostrar em seu corpo
o fundo opaco do ser que toda verdadeira palavra é
capaz de trazer à luz.

O QUE É ISTO, UM PAI?

Afirmar que a verdade do desejo é ser desejo da Lei

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FOLHA
EXPLICA

LACAN

Psicanáli!

VLADIMIR SAFATLE

Autor reconhecidamente difícil, de poucos textos, redi-
gidos em estilo elíptico, o psicanalista Jacques Lacan ( 1901-81)

tinha tudo para ser esquecido. No entanto, suas idéias tornaram-
se ponto de passagem obrigatório não apenas para os interessa-
dos na clínica psicanalítica, mas também para quem quer compre-
ender a filosofia, a teoria social, a estética e a crítica da cultura no
início do século 21 .

De onde vem a força dessas idéias? Como se desen-
volveram? Para onde querem nos levar?

Vladimir Safatle é professor do Departamento de Filosofia da
Universidade de São Paulo (USP) e autor de A Paixão do

Negativo: Locan e a Dialética.

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PUBLIFOLHA
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